domingo, 15 de janeiro de 2012

Águas turvas e perigosas (capítulo de livro em andamento)

As estrelas ainda compunham o cenário daquela noite quente de abril quando senti a mão do meu pai sobre meu ombro, me despertando. Ele me balançou suavemente para garantir que a casa continuasse dormindo naquela madrugada de outono. - Vista uma camisa e calce os chinelos – ordenou, dando a entender que iríamos a algum lugar.
Assenti com a cabeça, ainda sonolento, e passei a imaginar o pior. Se não íamos pescar ou caçar, por que me despertar àquela hora da madrugada, quando apenas as coisas ruins acontecem? Com certeza, algo estranho me esperava. Era meio de semana, dia sem graça para ir a rios e açudes pegar traíras e tilápias. Temi pelo pior. A madrugada sempre me pareceu o cenário ideal para fatalidades. O que estaria acontecendo? Ele deu de ombros e seguiu até a escada que dava acesso à serraria, no andar de baixo. Meu pai estava com ar preocupado, tenso, e aquilo fez crescer minha curiosidade. O que estaria ocorrendo àquela hora da noite? Lá fora as cigarras e os grilos eram os únicos seres vivos acordados no raio de um quilômetro. Levantei-me e fui a pia tirar o gosto acre da boca. A luz vacilante dos postes, que pouco iluminavam a rua esfumaçada pela névoa, não convidava par sair. Rompi o silêncio querendo saber o nosso destino.
- Vamos viajar para algum lugar? – indaguei.
Ele negou com a cabeça, num silêncio que desenhava bem seu ar sério. Abaixei-me, puxei as sandálias debaixo da cama e me dirigi à escada. Dali, acompanhei-o vestindo a camisa apressadamente. Descemos rápido, ignorando o breu que vinha do andar térreo da casa, onde funcionava uma pequena fábrica de móveis. No final do corredor, ele passou a apalpar a parede em busca do interruptor da luz. Encontrou e acendeu as lâmpadas. Seguimos em frente.
Meu pai parou diante de uma pilha de pequenas toras de madeira. Ali eram depositadas sobras da feitura de móveis. A maioria estava coberta com um pó acinzentado. Poucas vezes ele recorre a esse entulho, um cemitério de peças sem muita valia que raras vezes são resgatadas. Pareciam fadadas a apodrecer. A pilha ficava ao lado da parede que divida a serraria. Do outro lado, as máquinas, atoladas em pó de serra. A parte principal da serraria era reservada aos bancos de madeira e ao armário de ferramentas. O escritório foi improvisado sob a escada. Meu pai era um entalhador com fama em toda a Bahia. De suas mãos habilidosas surgiam quadros de espelho e cabeceiras de cama esculpidas com formão e martelo, feitas de jacarandá, sua madeira preferida, que adornavam quartos em várias cidades baianas, até mesmo em Salvador, a capital.
Ele passou a remexer na montanha de sobras, levantando uma pequena nuvem de pó. Escolheu dois pedaços que pareciam servir. Observou-os com a experiência de quem sabe a medida certa da madeira. Sempre em silêncio. Os dois cepos de sucupira foram colocados no torno elétrico. Até ali ainda não sabia o que ele pretendia. Franzi a testa. Não tinha coragem de perguntar qual era a nossa missão naquela madrugada fria e silenciosa. Foi então que notou minha curiosidade e decidiu revelar seu grave segredo. Teria sido melhor não ter tomado conhecimento do que estava acontecendo naquela madrugada. Sem desviar os olhos do que fazia, revelou que o quarto onde dormia com minha mãe estava sendo freqüentado por seres que não conseguimos enxergar, como os demônios das histórias assustadoras que ele mesmo costumava nos contar. Vultos inominados e sem rosto que poucas pessoas têm o dom de notar.
- Estou fazendo um Cristo crucificado. – explicou, de cenho fechado.
- Uma cruz? Por que uma cruz? – perguntei, sem entender o motivo que o levava a produzir o mais venerado símbolo religioso, em plena madrugada, quando deveríamos estar dormindo.
- Exatamente, uma cruz. E um Cristo pregado nela. Sua mãe está aflita e nenhuma oração está aliviando seu coração. Nunca vi nada igual ao que acontece lá em cima – narrou. Notei sua tensão e encerrei o interrogatório. Meu pai não queria adiantar detalhes daquela decisão. Falar do assunto parecia perturbá-lo. Lidar com o que estava acontecendo era aterrador até mesmo para ele. Percebi então que se tratava de algo grave e temi pela minha mãe. Não imaginava que meu pai tivesse perdido o sono e descido à serraria para trabalhar numa encomenda. Quando cerra as postas da fábrica, deixa a figura do marceneiro de lado, raramente trabalhava à noite. Continuei observando atento ele marcar a madeira com um lápis grande, vermelho. As mãos ágeis tracejavam riscos perfeitos na madeira. Meu pai era um artista no entalhe. Com uma habilidade impressionante era capaz de criar peças encantadoras, perfeitas, quase sempre de jacarandá, madeira escura que era adorada pelas famílias abastadas do sul da Bahia. Seus móveis entalhados enfeitavam salas, quartos e varandas em várias cidades da Bahia. Até de Minas Gerais e do Espírito Santo costumava receber encomendas.
Uma das peças de sucupira foi reservada para entalhar a figura do Cristo, de cabeça pendida e os pés juntos, pregados, semelhante ao que costumava ver no altar da Igreja Matriz São José. Na principal igreja da cidade havia um cristo em tamanho natural que ficava numa caixa coberta de vidro. Nas procissões, a igreja costumava exibir detrás do altar o homem magro, com cortes pelo corpo e uma coroa de espinhos na cabeça. Por muito tempo tive medo de fitar aquele senhor morto de forma tão cruel. Até entender quem era aquele sujeito magro, de costelas à mostra, preso à cruz por grandes pregos, temia chegar perto. O Cristo crucificado, do tamanho do meu pai, sempre me causava aflição, mais temor que devoção. Levei anos para compreender que o homem pendurado ali nunca iria me fazer mal. Achava estranhas aquelas senhoras com véu na cabeça, terço nas mãos e ar contrito com tanta intimidade com aquele moribundo na parede da igreja. E era justamente o homem que me causava medo que iria tirar o pavor que rondava minha mãe, atordoada por espíritos que escolheram aquela noite fria para atormentá-la.
Os braços foram desenhados em outra peça de madeira. Dali seguimos para a sala de máquinas e ele passou a cortar cada pedaço de acordo com os desenhos rabiscados antes, de grafite. Pediu que me afastasse para evitar o pó que a madeira desprende. Os homens que trabalham para o meu pai costumam usar um pano no rosto, cobrindo o nariz e a boca, como enfermeiras que tentam evitar ser contaminadas. Pareciam mulheres árabes, escondendo o rosto num véu. Algumas madeiras exalam um pó tóxico, eram capazes de causar náusea, vômito e até desmaio. Eles tomavam leite quando iam trabalhar com este tipo de madeira. Lembro de um sábado de muito pânico por causa de Arigó, rapaz esquálido, de aparência sempre pálida, que sofria com as madeiras que exalavam essa fumaça venenosa. No final da manhã, depois de tornear vários birros de uma cama, entrou cambaleando na área onde as peças eram montadas e lixadas. Sentou-se no chão e deitou-se ali mesmo, para espanto de todos.
A madeira que o meu pai usava, sucupira, no torno não era tão virulenta, mas ele preferiu me manter distante. O barulho ensurdecedor das máquinas parecia um estrondo quebrando a quietude daquela noite, agitando a calmaria do bairro. Minha preocupação passou a ser aquele gemido dos motores. Os vizinhos, ainda sob as cobertas quentes, poderiam aparecer a qualquer momento para se queixar da algazarra noturna. O zumbido de motores roncando deveria estar incomodando até o velho Alcebíades que vendia bolachas, balas e querosene numa mercearia a uma quadra dali. Não havia como disfarçar aquele barulho, que irrompia a madrugada silente, rangendo a altas horas. Era como quebrar uma vidraça no colégio ou derrubar um pote de azeitonas no supermercado. Não era possível disfarçar.
Terminada a etapa do barulho, as peças já torneadas voltaram para o balcão de madeira onde começaram a ser montadas. Mãos rápidas e talentosas esculpiram, com formão amolado, o rosto do nazareno e os contornos das pernas e do abdômen magro. Aquelas mãos costumavam transformar peças de jacarandá em obras cheias de vida. Faziam camas com a cabeceira entalhada, uma tarefa que levava semanas para ser concluída. A arte de meu pai era apreciada especialmente por fazendeiros ricos.
Quis saber como o homem da cruz iria ajudar minha mãe.
- Onde o senhor vai colocar esse Cristo, meu pai. – a pergunta era inevitável. Depois de acompanhar atento, resolvi alimentar minha curiosidade. Diante do silêncio, prossegui.
– Na sala?
– Não. No meu quarto, no alto da cabeceira da cama, respondeu.
– E por que não esperou o dia amanhecer para entalhar esse crucifixo - voltei a questionar.
– Sua idade não permite entender certas coisas. O mal não espera... – explicou, com uma expressão que me assustou. Agora ele finalizava seu trabalho, passando verniz na peça. E eu estava cada vez mais curioso e amedrontado.
– O mal? Como assim? É como se fosse uma bruxa – voltei a perguntar.
– Preste atenção no que vou te dizer. Há coisas ruins rondando a minha cama, o quarto. Eu sei que eles estão lá, eu sinto eles pressionando sua mãe. É como se ela tivesse uma janela aberta para essas coisas ruins, os espíritos. Entende?
– Sim - concordei.
Ele narrava aquele enredo de filme de terror enquanto passava o verniz na peça esculpida e lixada. Apesar da urgência, não sairia dali até que tivesse concluído o Cristo na cruz. Se tinha que fazer, então faria bem feito.
– Há horas ela chora agoniada e pede minha ajuda. Esse Cristo, Deus tomara, deve ajudá-la a enfrentar essas coisas enviadas pelo demônio.
A explicação fez subir um calafrio pelo meu corpo. O relato franco de meu pai fincou uma espada gelada em meu estômago. Aquilo me deixou apavorado e preocupado com minha mãe. Eu só veria uma pessoa possuída por espíritos, uma cena medonha que nunca esqueci, anos depois. Fomos morar num bairro recém criado nos arredores de Itapetinga, nesta época, com poucas casas ao redor. No local logo conheci um rapaz, um oleiro franzino, recém-chegado à cidade, que se tornou amigo da nossa família. Certa noite fui visitá-lo e o encontrei sobre a mesa da varanda, babando e urrando frases indecifráveis. Seus olhos aturdidos pareciam saltar para fora e sua voz era grave e ameaçadora. Foram necessários dois homens, entre eles seu pai, um carroceiro aposentado, para detê-lo. Pediram para que eu fosse embora. Nunca mais voltei a vê-lo. Entendi que a voz e as expressões do rosto não eram suas. Alguém usava seu corpo e sua fala para se manifestar de forma ameaçadora. Ele proferia palavrões contra a própria mãe, gesto que jamais faria se estivesse em seu juízo perfeito.
Temi que minha mãe passasse por aquele teste de fogo e cedesse terreno aos monstros e bruxas que habitam as trevas. Tinha medo de perdê-la para esse espírito que não tinha cor, nem nome, que não se deixava ser visto, ser notado. E foi essa figura medonha que imaginava ter asas negras, chifres e unhas grandes que meu pai afugentou ao apelar para uma cruz de sucupira e nela um homem magro, esculpido. A noite custou a avançar e quando o sono veio já era tarde. A manhã veio tecendo de escarlate o céu e nos livrando das brumas, do pesadelo. O bairro acordou e quando vi minha mãe ainda dormindo, com ar tranqüilo, dei-me conta de que ela sobreviveu aos ataques do outro mundo, dos seres sem rosto que habitam a escuridão. Quando acordou, mostrou desinteresse ao ouvir minhas irmãs querendo explicações sobre o barulho de motores na serraria e a conversa na madrugada.
– Tive dor de cabeça. Não sabem que minha cabeça quando dói, o mundo parece desabar – explicou. Ela parecia incomodada, ainda aflita, e não queria abrir seu coração e nem a ferida adquirida na madrugada. Para ela, aquela noite de tormento e angústia deveria ir parar no porão de sua memória, ser sepultada num lugar onde nem ela, e nem nós, deveríamos alcançar. A batalha em águas turvas e perigosas que minha mãe travou, e provavelmente superou com a ajuda de meu pai e do Cristo crucificado, foi difícil de ser vendida. A mulher que enfrentou os espíritos do mal não queria mexer nos escombros de uma noite triste e fria. Deu as costas e encerrou a conversa ali.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sophia Fernandes: onde anda a patricinha que não tem sangue azul?

Estava acompanhando a polêmica envolvendo a patricinha gaúcha, Sophia Fernandes, que assinava @SophiaOfDreams no Twitter, acusada de racismo ao postar mensagens preconceituosas contra nordestinos nessa ferramenta. O caso ganhou repercussão e a Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) encaminhou ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul (MPF-RS), onde reside a estudante, uma queixa-crime. E desde então não tenho lido mais nada sobre o assunto na imprensa, apenas comentários em blogs, nas redes sociais. O caso morreu?

A patricinha gaúcha teve um dia ruim quando decidiu ir atrás de seus 15 minutos de fama e atacar os de cá. Foi extremamente infeliz ao se reportar de maneira racista contra seus irmãos nordestinos. Ou Sophia acredita mesmo ser superior e não ter os mesmos laços pátrios que nós? O que será que se passa na cabeça de vento dessa menina? De onde tirou a tese de que é superior aos piauienses, que está acima dos cearenses, que possui sangue azul? Como pode uma menina de rosto angelical, e traços doces, escrever coisas como “Tem que usar câmara de gás pra matar teu povo” (...) “O Nordestino é a própria sujeira”? Isso é inconcebível.


Foi assim, gestando sentimentos imundos de ódio contra os iguais que um jovem soldado do exército alemão ascendeu ao poder com um projeto de fustigar uma raça que ele queria ver varrida da face da terra, os judeus. Anti-semita convicto, Hitler pregava o ódio, como essa patricinha sem eira nem beira faz agora. A pobre Sophia teve um surto hitleriano e se viu cercada de seres perfeitos, cabelos louros, olhos verdes e nascidos em terras do sul. Essa mesma terra agora ressequida pelo sol, onde o gado de linhagem européia está esquálido e com sede, lembrando estiagens severas que castigaram os nordestinos que ela tanto diz odiar. Sua terra, Sophia, não escapa das intempéries do tempo como meu Sergipe, minha Bahia.

Essa babaca de bombacha precisa entender que numa mesma nação convivem em ordem, e harmonia, raças diferentes, sob a mesma língua e bandeira. A patricinha que destilou ódio a irmãos nordestinos não pode ficar impune. Como não deve ter recebido uma boa surra, como nos bons tempos da minha avó, que costumava dar uma sova de palmatória ‘pra aprender bons costumes’, precisa ser penalizada pela Justiça pra entender que não tem sangue azul e que o país onde vive é homogêneo e abriga a todos sob uma mesma bandeira. Gaúchos, catarinenses e paulistas se espalharam pelo Nordeste e são bem recebidos Sophia. Aliás, adoram nossas praias. Aqui em Sergipe abrigamos vários irmãos sulistas. Isso mesmo, irmãos.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O bilhete de Chico Buarque e a Casa da Mãe Joana

O primeiro post do blog em 2012 deveria tratar de uma patricinha gaúcha, malcriada, que atacou os nordestinos em busca de15 minutos de fama. Mas ela me aguarde que vou dedicar o primeiro texto para uma polêmica (nem tão nova) em torno de Chico Buarque de Holanda, cantor e escritor. Precisamente sobre um bilhete deixado por ele para a diarista, transformado em peça literária de primeira grandeza. Um documento que parece fadado a ganhar moldura e posição de destaque no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM).

 Antes de deitar falação, reproduzo aqui o célebre bilhete de Chico, escrito para a diarista Maria do Socorro. Uma obra prima. “Socorro, por favor deixa um guisadinho de abóbora com carne para o fim de semana. Obrigado, Chico.” Logo após alguém descobrir a mais nova investida literária do cantor, e tornar pública, veio o reconhecimento da ‘crítica’.

Na Folha de São Paulo o crítico Roberto Kaz fez uma profunda análise da frase. Disse que a tensão dialética empregada por Chico desnuda as contradições da sociedade brasileira. “Há na mensagem esse magma complexo que nos define – delicadeza e opressão, gentileza e comando, flor e aço. É toda a relação ambígua entre as classes que se dá a ver nestas 15 palavras”.

Acha que esse Roberto Kaz merece camisa de força? Pois veja o que Epaminondas Veras escreveu no jornal Estadão sobre o bilhete, desta vez analisando o sentimento agônico que se instala no leitor ao ler a obra. “Terá Socorro deixado o guisadinho? Estamos na estação das abóboras? Nada disso se resolve na leitura, e Chico nos deixa a contemplar a possibilidade do abismo. É uma experiência devastadora”. O danado do bilhete ganhou até uma abordagem de José Ramos Tinhorão. Nem tanto favorável, mas ganhou a atenção do renomado crítico.

Mais gente achou fora de série e brilhante Chico Buarque pedir um guisado de abóbora, mas a Casa de Rui Barbosa foi além e, num gesto que deve ter deixado o brilhante mestre do Direito contrariado no além, e se revirando na cova onde descansa, ofertou no ano passado duas bolsas de pesquisa para estudantes de doutorado que queiram se dedicar ao estudo de outros bilhetes, desta vez eletrônicos, recados deixados por ele na secretária eletrônica de seu personal trainer, Marcão. É sério. Virou a Casa da Mãe Joana. Pobre Rui Barbosa.

Chico Buarque é um dos nossos gênios na música. Vencedor de festivais, e ícone de gerações, tem ainda uma incursão brilhante e premiada na literatura com os livros Estorvo, Budapeste e Leite Derramado. É detentor de três Prêmios Jabuti. Mas daí a ser alvo de tese de doutorado por escrever bilhetes para a diarista, e deixar recados para o personal trainer, tem uma distância enorme, um vácuo galáctico. Há excessos e doses cavalares de bajulação na abordagem de um simples bilhete deixado sem grande propósito, a não ser o de degustar abóbora.

Não creio que Chico Buarque de Holanda esteja feliz com a festa literária que fazem em cima da despretensiosa correspondência trocada com sua diarista. Dão valor literário desmedido como se estivessem debruçados sobre cartas inéditas deixadas por Mário de Andrade (que escreveu, com brilho, pelo menos sete mil delas).  

Menos, menos...




PS: o bilhete de Chico Buarque parece ser uma obra de ficção do blog http://revistapiaui.estadao.com.br, o que torna esse post também uma obra de ficção (até que se prove o contrário)


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Santa cruz de beira de estrada: memória de quem ficou pelo caminho

Foto de santa cruz obtida com Nikon Coolpix P100
O ano foi encerrado no Espaço Cultural da Assembleia Legislativa de Sergipe com uma mostra diversificada de arte, música, literatura e fotografia. E nesse contexto está a exposição de fotos da jornalista (que não quer o rótulo de fotógrafa) Rosângela Dória. São 24 fotos que retratam uma tradição brasileira, muito presente nas rodovias do Nordeste, especialmente as estaduais: santas cruzes de beira de estrada. São aquelas capelinhas erguidas na beira da pista nos locais onde ocorreram acidentes de trânsito com vítima fatal. E muitas foram erguidas em homenagem às vítimas de crimes, de emboscadas.
 
Rosângela começou a fotografar as santas cruzes nas viagens de férias. Na última, fez um périplo pelo sertão sergipano cortando mais da metade do Estado. E fez mais de 200 fotos das capelinhas que mostram que a violência nas estradas preocupa. “Há trechos de rodovias onde as santas cruzes estão há menos de vinte metros uma da outra”, comenta. A ideia inicial era fazer uma reportagem sobre o assunto. Com a sugestão da curadora Espaço Cultural da Assembleia, Ilma Fontes, resolveu mostrar as fotos numa exposição.


Santa Cruz de beira de estrada em pleno sertão

“Comecei a fotografar uma capelinha, duas, três, dez e vi que isso era muito mais presente nas estradas do que eu imaginava. Outra coisa que eu imaginei era que só eram de vítimas de acidente de carro, mas também são de pessoas assassinadas ou de qualquer outra tragédia”, observou. A jornalista afirma que participar da mostra causa dupla satisfação. “Primeiro por fazer uma exposição com essas fotos, que é um assunto que eu gosto muito e, segundo, por ser aqui na Assembleia, minha casa por durante quase cinco anos. Então é uma alegria estar expondo aqui”.
 
Santa cruz com igreja matriz ao fundo: cenário típico do sertão


Muitas tragédias são marcadas com cruzes, sem capelinha de alvenaria
Rosângela se surpreendeu ao descobrir que muitas santas cruzes de beira de estrada foram erguidas em memória de vítimas de homicídios. Uma das fotos que integram a mostra é a da santa cruz erguida em homenagem ao promotor de Justiça Valdir de Freitas Dantas, assassinado na estrada de acesso a Cedro de São João, na manhã do dia 19 de março de 1998, quando fazia uma caminhada.

Exposição está no Espaço Cultural da Assembleia Legislativa

Presidente da Alese, deputada Angélica Guimarães, abre mostra do Espaço Cultural de dezembro

A exposição de fotografias de Rosângela Dória fica no hall da Alese até o dia 30 de dezembro. Vá conferir.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Canindé muito além do Cânion de Xingó: roteiro gastronômico

A passos largos para se firmar como um dos roteiros mais bonitos e procurados do Nordeste, Canindé do São Francisco se estrutura para receber turistas que querem permanecer na localidade por mais de um dia. Embora haja um fluxo impressionante de turistas ‘bate e volta’, aqueles trazidos pelas agências com retorno previsto para o mesmo dia, a cidade passa a oferecer infra-estrutura de primeira qualidade. O turismo ali experimentou um boom nos últimos anos e há ainda uma carência por leitos, é verdade, mas tudo ali está sendo capacitado para o turismo, como a gastronomia.

As mudanças em Canindé não acontecem por milagre. A prefeitura tem investido na qualificação da mão-de-obra do setor através de parceria firmada com o SENAC-SE. Investimentos na área de gastronomia tornaram a cidade ainda mais conhecida com a ‘Festa do Quiabo’ e o ‘Festival da Goiabada’, além do ‘Festival da Gastronomia do Bode’.

Além do restaurante Karrancas, de ótima comida e localizado na beira do lago da hidrelétrica de Xingó, existem várias opções na beira do rio São Francisco, em Piranhas, cidade história de Alagoas, e há ainda o restaurante Angico na base de apoio aos turistas da Trilha do Cangaço, cercado por mangueiras e visitado por cabeças (pássaro da cabeça vermelha) e canários. Cito também os restaurantes dos dois maiores hotéis da cidade (Xingó Parque Hotel e Hotel Águas do velho Chico) e posso indicar ainda um restaurante que fica ao pé da ponte que liga Canindé a Piranhas (lado alagoano).
Opções não faltam para se comer bem na cidade.

Doces vendidos no Restaurante Angicos

Um dos bons restaurantes que conheci, com excelente comida regional, é o Sabor do Sertão. Recomendo ali a tilápia frita, a galinha caipira e a costela de cordeiro. E ainda tem uma buchada de cabrito nota dez. O restaurante fica num sítio, localizado há uns três quilômetros do perímetro urbano de Canindé.
 
Restaurante Sabor do Sertão: comida típica regional

Outra excelente opção é o Dom Francisco, na avenida Otávio Fernandes, dentro da cidade. O local é mantido pela quituteira Lalá e atende a grupos de turistas com buffet regional e pratos individuais. Uma das iguarias do local é a deliciosa lingüiça de bode. Experimente, recomendo.


Dom Francisco, outra ótima opção para comer bem
Linguiça de bode é especialidade do Dom Francsico

E quando quiser provar doces, a escolha é a goiabada de Canindé, diferente de qualquer goiabada que já provei. Na cidade quem faz a melhor goiabada é Sandra Ribeiro Araújo, responsável pelo doce que ganhou fama em Sergipe. A iguaria se tornou ainda mais conhecida quando participou de um dos quadros do programa ‘Mais Você’, da Rede Globo, apresentado por Ana Maria Braga. A partir daí o doce passou a ser enviado para outros estados pela prefeitura.

Rosângela atrapalha Sandra fazer a famosa goiabada

A secretária de Turismo de Canindé, Sílvia Oliveira, a Silvinha, está entusiasmada com a repercussão da goiabada que o município produz, que tornou-se um dos principais itens da variada gastronomia da cidade, município que enfrenta um ‘boom’ turístico.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Financiamento de veículos x juros abusivos

Quem já financiou um veículo sabe bem o que é juro extorsivo. Nem uso a palavra abusivo, porque a aplicação dos juros sobre o valor financiado produz um resultado danoso para o bolso de quem financia. E falo com a autoridade de quem já fez dois financiamentos e agora vai para o terceiro.

Com o juro oferecido atualmente, em torno de 1,4% (que na verdade é uma taxa fictícia, pois o juro real é um pouco maior), um financiamento de R$ 20 mil tem um custo absurdo de 60% sobre o valor financiado, em prazos que variam de 36 a 48 meses (três e quatro anos). Do total financiado, R$ 20 mil, haverá um acréscimo absurdo de R$ 12 mil para 36 parcelas e em torno de R$ 13,5 mil para 48 vezes. Ou seja, você compra e leva um modelo popular seminovo e paga o preço de um carro zero, completo.

Não sei quais são as regras que regem esse mercado, mas acredito que as instituições estão por conta própria. Bancos e financeiras lucram quantias estratosféricas nesse ramo e não há nenhum órgão público regulando essa prática, esse filão. Sem dúvida, financiar carro é como garimpar ouro em Serra Pelada. Os lucros se agigantam da noite para o dia.   

Existem outras taxas que são inclusas no financiamento e você não enxerga. E nem a moça bonita que lhe atende informa. Há o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e uma tal de TAC (Taxa de Abertura de Crédito). Para quem financiar, por exemplo, o valor de R$ 13,8 mil, vai pagar cerca de R$ 200 de IOF e mais uma TAC de R$ 500 reais (e isso varia de uma financeira para a outra). O valor a ser financiado pula para R$ 14,5.


Há taxas a perder de vista, emissão do carnê, boleto bancário, comissão de permanência, serviços de terceiros, entre outros penduricalhos nesse bolo. Mas estou partindo para o terceiro financiamento, infelizmente.


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Lampião era gay, vaidoso ou metrossexual?

O livro do juiz aposentado Pedro Morais levanta uma baita polêmica em Sergipe em torno da longeva e misteriosa figura de Virgulino Ferreira, o Lampião, cangaceiro que aterrorizou o sertão brasileiro no século passado. O livro ‘Lampião, o mata sete’, se mostra um libelo contra a masculinidade de um homem que, embora tenha em sua carreira de cangaceiro feitos que muitos bravos jamais teriam coragem de protagonizar, tem sua fama de macho questionada. O autor do livro escreve em bom e claro português que ele era gay, e pronto.

Não pus ainda os olhos sobre o livro de Pedro Morais (apenas acompanhei entrevistas que o juiz aposentado concedeu a algumas emissoras de rádio), mas tenho lido argumentos semelhantes onde, entre outros fatos, os autores se baseiam na habilidade de Virgulino com a máquina de costura, com agulhas e linhas de coser. E colocam nessa leva de argumentações o gosto do cangaceiro por perfumes, anéis e até fotografias.

Conheço um pequeno criador de gado que pegou fama, na juventude, por algumas estripulias feitas no pequeno lugar onde mora, e também pelas conquistas amorosas. Um episódio famoso foi adentrar um bar, montado num cavalo, e pedir bebida para os dois. Foi atendido prontamente.

O personagem que cito, um típico sertanejo, como Lampião, gosta de bons perfumes, é vaidoso e a exemplo de Virgulino tem intimidade com a agulha. Quando moço foi ajudante de alfaiate e faz as bainhas de minha calça, por exemplo, com uma perfeição que nunca vi igual. E isso o torna um gay? Isso o coloca na lista dos pederastas da sua cidade? Se o raciocínio construído para enlamear a reputação de Lampião vem daí, da facilidade de costurar, da vaidade pessoal, é uma tese refutável, merece um debate mais aprofundado.

Não acho correta a proibição, através da Justiça, do lançamento do livro de Pedro Morais. Mas a tese que colore o jaleco de couro de Lampião de rosa é perigosa. O cangaceiro que teria sido poeta, enfermeiro, dentista, repentista, tem descendentes em Sergipe, e sua neta, Vera Ferreira, conheço, tem os traços físicos do avô e está estupefata com a novidade. Acho justo, entretanto, que ela não queira ver a reputação do avô virar purpurina.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Flamengo de Ronaldinho é sem vergonha, sem alma e sem raça


Eu vi Leandro em campo jogando como se estivesse na sala de estar de sua casa. Deslocado da lateral-direita para o meio por causa de problemas no joelho, andava em campo como a mesma elegância com que davas passes precisos, medidos à régua. Cheguei a imaginar se não era Zico fingindo ser Leandro e jogando lá atrás. Como era bonito ver aquele time atuar, e vencer, e  quebrar tabus um atrás do outro, como atingir o recorde mundial de 52 partidas sem perder. Um Flamengo eleito por 100 jornalistas do país como o melhor time de todos os tempos (revista Placar). Hoje vejo esses mercenários, liderados por Ronaldinho Gaúcho, ganhando salários astronômicos e envergonhando uma camisa tão valiosa.

Esse time comandado por Vanderlei Luxemburgo que não tem raça, nem alma e nem brilho parecia fadado a grandes conquistas. Depositamos nesse Flamengo esperanças de ver um time semelhante ao que bateu o favorito Liverpool em Tóquio (final do Mundial Interclubes). Esse time sem vontade de vencer jamais chegará perto do rolo compressor formado por Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Adílio, Andrade e Zico; Tita, Lico e Nunes (Leandro, aqui era lateral).

O Flamengo campeão em 1981 havia enfrentado uma guerra sem tamanho na Copa Libertadores. Enfrentou um adversário desleal, que além de possuir uma boa equipe, bem entrosada, era ardilosa e extremamente violenta. O chileno Cobreloa cobrou caro pela derrota na final. O Flamengo teve que se impor pelo talento e pela raça. Ganhou no tapa também.

Esse Ronaldinho baladeiro, festeiro, marqueteiro e milionário, que vive provocando cartões amarelos e expulsões para receber em casa seus amigos pagodeiros em nada lembra o genial Zico, considerado o maior jogador brasileiro depois de Pelé e um dos quatros do país no ‘Hall da Fama da Fifa’ (ao lado de Pelé, Garrincha e Didi).  O galinho foi eleito o terceiro futebolista brasileiro na lista dos atletas do Século e depois de Pelé é o maior autor de gols ‘fora de série’, aqueles que costumam ser aplaudidos de pé.

Não consigo ver a leveza e o talento de Adílio em nenhum de nossos jogadores atuais. Não há nenhum com o brio e a frieza de Andrade. Depois de recusar Adriano, ficamos sem um goleador de faro apurado e raça incomum, como Nunes. E zagueiro imponente, clássico e durão como Mozer? Quando teremos um gênio como Júnior na lateral esquerda e um goleiro mestre em grandes defesas, como Raul? Onde vamos arrumar outro Tita e um homem-show como Júlio César (o ‘Uri Geller’ da Gávea)?

Esse time sem vergonha não chegará a lugar algum.


PS: O israelense Uri Geller tornou-se um fenômeno paranormal nos anos 1970 com demonstrações de poderes paranormais – como entortar colheres com a mente.

A foto é de Wagner Meier do GLOBOESPORTE.COM



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Apadrinhados fazem trânsito de Aracaju virar um caos

Curtia Frejat no toca CD do táxi que me levava de casa para o Jornal da Cidade quando um comunicado no rádio amador interrompe a música e chama minha atenção. A voz do outro lado avisa aos motoristas da empresa de rádio táxi que todos estavam proibidos de ir apanhar passageiros em São Cristóvão, Barra dos Coqueiros e Nossa Senhora do Socorro, municípios da Grande Aracaju. A ordem era clara: quem aceitasse clientes nestas áreas estava por ‘conta e risco’. O rapaz lembrava que era determinação do Ministério Público Estadual (MPE).

O mesmo táxi que me conduzia enfrentou um congestionamento na área central da capital, onde se concentram as lojas, escritórios e muitos prédios públicos. O centro comercial possui poucas residências agora. O trânsito nesse perímetro está um caos. Ruas estreitas, quadras curtas e muitos sinais empacam o trânsito. E ainda há os taxistas clandestinos.

O motorista reclama e afirma que o ‘inferno’ está pior por causa dos táxis lotações do interior, especialmente do trio Barra-Socorro-São Cristóvão (vistos como . E se queixa também dos ônibus que têm como referência o Terminal Rodoviário Garcia Leite. Aquilo ali é uma aberração (essa queixa é minha).

O Ministério Público Estadual está correto em não permitir que táxis de Aracaju invadam estas três cidades, mas quem vai proibir que os táxis destas cidades invadam a capital e tornem nosso trânsito um inferno?

Os tais ‘táxis-lotação’ da Barra-Socorro-São Cristóvão sequer fazem parada nas suas cidades de origem, deixam o passageiro lá e estacionam em pontos de parada em Aracaju. E ninguém adota uma providência porque as concessões emitidas para esse tipo de violação são feitas por prefeitos e amparadas por vereadores e lideranças políticas.

A presença dos táxis-lotação de Barra-Socorro-São Cristóvão e de várias cidades do interior (Maruim, Laranjeiras, Estância, Itabaiana, Propriá, etc., etc.) é um abuso, uma violação e merece ser proibida.

Foto: JORGE HENRIQUE/JC

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Zezé & Luciano continuem cantando (mesmo que eu não vá escutá-los)

Acompanho com certo interesse o desfecho da polêmica que envolve os irmãos Zezé Di Camargo e Luciano, que formam uma dupla de sucesso na música sertaneja. Acompanho as notícias nem tanto pela empatia com a dupla, ou por temer que se separem, mas porque se tornaram um dos assuntos mais comentados e lidos na imprensa desde que surgiram rumores da separação. Coisa de jornalista.

E foi seguindo o assunto de perto que acabei indo parar num blog no portal Yahoo, atiçado pelo título forte da postagem: ‘O fim da dupla Zezé Di Camargo & Luciano seria um alívio’. O texto é de Regis Tadeu, que defende a separação e até mesmo a aposentadoria dos dois cantores. O rapaz justifica que a dupla produz música xaroposa e sem qualidade. E diz que ficaria aliviado se os dois fossem plantar tomates (ele não afirma isso literalmente, apenas dar a entender nas entrelinhas). Pois é.

A música de Zezé Di Camargo e Luciano não frequenta o meu toca CD. O gênero sertanejo, aliás, não está entre os meus preferidos, mas a existência da dupla não me incomoda. A existência de nenhum tipo de música me incomoda e se interessa a Regis Tadeu saber, escuto brega, clássico, MPB, música cubana e alguns nomes do axé music. Já ouvi Aviões do Forró e Saia Rodada. Já ouvi até Joelma, que faz meu ouvido gemer de dor. E não vomitei. E defendo que a loura da banda Calypso continue ganindo por ai com aquela voz de taquara rachada (faturando muito e vendendo seus DVDs).

Acho deselegante e de uma intolerância injustificável pregar a extinção das coisas que não gostamos. Foi pensando assim que Hitler montou uma poderosa máquina de matar e avançou no processo de extinção de judeus, por quem nutria ódio. A dupla que esteve por se separar tem talento sim e representam o que há de melhor na música sertaneja, goste ou não dela. Ouvir, ou não, é outro debate. Eu não aprecio, mas admito: eles têm talento. Não se pode defender a aposentadoria apenas por não curtir o gênero sertanejo e o repertório de Zezé e do irmão.

Não sei quem é Regis Tadeu, e ele não sabe quem sou, com certeza, mas se tudo que escreve é baseado na intolerância, não merece minha audiência. Minha passagem pelo seu blog, meu caro, se encerra por aqui.